quinta-feira, 29 de setembro de 2011

aula: Complexo de Édipo e Superego na visão kleniana

Complexo de Édipo e Superego

Freud:
Freud preconiza a situação edípica como uma das problemáticas funda­mentais à teoria psicanalítica, visto que este é o momento no qual se dará a constituição do sujeito. Nesse sentido, como aponta Moreira (2004), a importância da passagem pelo Édi­po e sua condição estruturante nos remete a pensar a constituição do sujeito a partir da incontestável presença do outro. Ora, se a triangulação edípica não prescinde da exis­tência de um casal de pais, seja real ou sim­bólico, torna-se imperativo a inscrição do outro na estruturação do sujeito.

O sujeito, por conseqüência do que é vivenciado no Édipo, sai com determinadas identificações. É a par­tir destas identificações que será possível a constituição do superego.

“O superego resulta de um processo identificatório com a lei, da qual o pai é o representante.” (Moreira, 2004, p. 224).

A dissolução do Complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estru­turação da personalidade e na orientação do desejo humano, além de ser a principal temática de referência no que diz respeito às psicopatologias.

Freud concedeu ao complexo de castração o eixo central para a compreensão do Complexo de Édipo. Dife­rentemente, Melanie Klein descreveu a situ­ação edípica com foco nas fantasias primá­rias.

Klein:
A hipótese do superego arcaico já havia obrigado Melanie Klein a antecipar o início do complexo de Édipo para o começo do segundo ano de vida. Mais tarde, ela desvincularia o surgimento do superego arcaico da questão edípica e acabaria por antecipar o próprio complexo de Édipo em sua dimensão mais arcaica para os seis meses de idade, quando surge a primeira "posição depressiva".

Segundo Klein (1945/1996), o Com­plexo de Édipo começa paralelamente com início da “posição depressiva”, uma vez que é nesta fase que os sentimentos amorosos passam a ocupar cada vez mais espaço, no lugar dos sentimentos persecutórios e des­truidores, característicos da “posição es­quizoparanóide”. E seu declínio coincidirá exatamente com a prevalência dos sen­timentos característicos da “posição depres­siva”, o amor da criança pelos pais, o desejo de preservá-los e não mais de destruí-los. Isto torna visível como é central a questão edipiana no desenvolvimento da criança, já que a transição da “posição esquizoparanói­de” para a “posição depressiva” se dá neste contexto e é favorecida por ele. Os impulsos sexuais são direcionados para uma forma de reparar efeitos da agressividade, o que induz ao nascimento de fantasias reparado­ras, de extrema importância para a sexuali­dade adulta.

Klein (1925/1996) ainda afirma que os sentimentos de culpa têm origem nos de­sejos sádico-orais, e não são conseqüências do Édipo, mas sim um dos fatores que acompanham o desenvolvimento edipiano.

Já a origem do Superego, como afirma Marta Rezende (2002), se localiza já nos primeiros es­tágios do conflito edípico. Sua formação se inicia desde muito cedo, “e o que faz com que ele apareça é o advento do Complexo de Édipo” (Cardoso, 2002, pág. 55.).

Melanie (1945/1996) revela que a criança introjeta objetos em cada fase de sua organização li­bidinal, e o superego é construído a partir destes elementos introjetados. “O superego se desenvolve a partir dessas figuras introje­tadas – as identificações da criança – influen­ciando, por sua vez, a relação com os pais e todo o desenvolvimento sexual.” (Klein, 1945/1996, págs 463-4).

Como Melanie Klein descreveu a situ­ação edípica com foco nas fantasias primá­rias, pode-se dizer que, ao conseguir distinguir objetos to­tais, a existência dos pais como pessoas que possuem seus próprios desejos e que se voltam para outros campos que não a crian­ça, essa começa a direcionar seus impulsos e fantasias a estes, o que instala o cenário para o início do Complexo de Édipo.

Assim, é possível verificar a relação intrínseca entre o desenvolvimento edipia­no e a formação do superego, e entre estes fatores e a passagem da “posição esquizopa­ranóide” para a “posição depressiva”, fatores esses que incidirão diretamente da estrutu­ração da personalidade do sujeito.

De acordo com Fi­gueiredo e Cintra (2008), é a partir do atra­vessamento da posição depressiva e a so­lução do complexo edipiano que o sujeito amplia a capacidade de experimentar rela­ções complexas e ambivalentes com obje­tos integrais, admitindo a relativa autonomia destes objetos e suas ligações com os outros e com eles próprios.

Há uma alternância entre objetos internos e ex­ternos ao se perceber a realidade, por parte do bebê, o que interliga intrinsecamente o complexo de Édipo à formação do supere­go.

A partir da análise de crianças pequenas (3 a 6 anos), Klein pôde constatar que as tendências edipianas são despertadas pelo desmame (entre o primeiro e o segundo ano de vida). Esta frustração oral é reforçada pelas subseqüentes frustrações anais e também pelas diferenças anatômicas que existem entre os sexos, o que faz necessário explicar o desenvolvimento do menino e da menina separadamente.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

vídeo: O QUE SERÁ? Chico Buarque e Milton Nascimento

video

O Que Será (A flor da Terra)

O que será que será
Que andam suspirando
Pelas alcovas?
Que andam sussurrando
Em versos e trovas?
Que andam combinando
No breu das tocas?
Que anda nas cabeças?
Anda nas bocas?
Que andam acendendo
Velas nos becos?
Estão falando alto
Pelos botecos
E gritam nos mercados
Que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza
Nem nunca terá!
O que não tem concerto
Nem nunca terá!
O que não tem tamanho...
O que será? Que Será?
Que vive nas idéias
Desses amantes
Que cantam os poetas
Mais delirantes
Que juram os profetas
Embriagados
Está na romaria
Dos mutilados
Está nas fantasias
Dos infelizes
Está no dia a dia
Das meretrizes
No plano dos bandidos
Dos desvalidos
Em todos os sentidos
Será, que será?
O que não tem decência
Nem nunca terá!
O que não tem censura
Nem nunca terá!
O que não faz sentido...
O que será? Que será?
Que todos os avisos
Não vão evitar
Porque todos os risos
Vão desafiar
Porque todos os sinos
Irão repicar
Porque todos os hinos
Irão consagrar
E todos os meninos
Vão desembestar
E todos os destinos
Irão se encontrar
E mesmo padre eterno
Que nunca foi lá
Olhando aquele inferno
Vai abençoar!
O que não tem governo
Nem nunca terá!
O que não tem vergonha
Nem nunca terá!
O que não tem juízo...(2x)
Composição: Chico Buarque & Milton Nascimento

INVEJA E GRATIDÃO


Há uma canção do Chico Buarque e Milton Nascimento que fala sobre aquilo “que não tem medida, nem nunca terá”, nossas onipotentes e desmedidas paixões – amor, ciúme, controle, posse, ambição, inveja, raiva -, com seu caráter indomável, ilimitado e insaciável: “que não tem governo, nem nunca terá”.
É um mundo de desejos que ameaçam ultrapassar-nos, transbordando. Diante da autonomia dos “quereres” inconscientes, vindos de outro lugar e que nos marginalizam em relação àquele nosso “eu” mais bem comportado, o poeta se pergunta: “O que será que dá?”
Assim, mostra seu espanto diante do desejo que quer tudo abarcar: plenitude da satisfação, onipresença e posse exclusiva do objeto de amor.
Demanda grandiosa de amor absoluto, urgente, irrealizável, destinada à frustração: é isso que Klein considera o caráter “infantil”insaciável – de todo desejar humano em sua fonte mais inconsciente e arcaica, ponto de nascimento da angustia, das ansiedades mais primitivas e difíceis de atravessar.

Então, a INVEJA PRIMÁRIA é uma outra maneira de falar a respeito da força bruta do desejo em suas origens.
Na inveja há um desejo de ser a pessoa amada, assim, o invejoso quer confundir-se com o amado, fundir-se com ela, sendo-a por dentro - fantasia de incorporação e posse.
A pulsão de morte está na tendência a apropriar-se das qualidades do outro, a apagar a sua importância. Tirar o valor das outras pessoas, desprezá-las, revela o medo de sofrer e, como se sabe, “quem desdenha, quer comprar”.
O alvo para o qual se dirige a inveja é o bom, o belo, o admirável.
A inveja quer a posse imaginária da criatividade, da aptidão que a outra pessoa tem para gerar.
A inveja dá expressão clara à voracidade, à avidez do desejo.
O bebê se dirige ao seio como vampiro – ele quer sugar tudo, e essa voracidade transforma-se em desejo de estrangular e estreitar, de descobrir tudo o que há de quente e precioso no corpo materno, de retirar-lhe todos os seus preciosos conteúdos e apropriar-se deles.
É a própria ambição desmesurada desse amor que o torna sádico.
Lacan chama Klein de “açougueira genial – a teoria kleiniana aproxima-se à arte do grotesco nesse desmesurado e despudorado avanço para as regiões mais baixas e obscuras da mente.
- “como ela sabe que tem isso no bebê?” –
Com base nas sessões de análise com seus primeiros pacientes infantis e também com seus pacientes adultos, ela infere que a presença de uma força sádica no amor das origens, com toda a sua dose de violência pulsional.


INVEJA
- Klein diz que toda inveja tem a ver com o objeto primário, o objeto que tem o poder de suprir tudo. O primeiro objeto invejado é o seio materno.
- Palavra ligada a Pulsão de morte. É o grande representante da pulsão de morte,  gerando com isso ansiedade e conseqüentemente, defesa.
- Destruição – toda inveja é destruidora
- Ninguém tem inveja de coisas ruins.
- Na inveja, o que é destruído não é apenas o mau, também é direcionada ao bom, portanto, ataca o que é bom.
- mãe ou analista recebe fortes ataques para destruir o que é bom: possibilidade de produzir leite, capacidade de holding, capacidade de interpretar. Deprecia o que é bom.
- é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva a atacar e destruir o objeto, aquele cuja introjeção é a base da saúde mental.
- este afeto inconsciente impede a introjeção de boas experiências e, portanto, dificulta a integração psíquica. 
(ataca o outro e teme o ataque deste) – gerando – sentimento persecutório

Quanto maior a inveja, maior a ansiedade persecutória, maior necessidade de defesa.

O que pode impedir o BOM de ser introjetado, tendo um agravante para o psiquismo da criança.


INVEJA NO SETTING – RELAÇÃO DUAL

Paciente – analista

- a inveja foi um campo aberto por Klein para dar conta de alguns aspectos importantes que ocorrem no setting
- quando um paciente não aceita uma interpretação
- ataques à escuta do analista
Pode gerar:
- impasses no processo (não anda)
-RTN – o invés de melhorar, piora

INVEJA, CIÚME, VORACIDADE

INVEJA: é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfrutaalg desejável – sendo o impulso invejoso o de tirar este algo ou de estragá-lo. Pressupõe a relação do individuo com uma pessoa e remonta à mais arcaica e exclusiva relação com a mãe.
CIÚME: é baseado na inveja, mas envolve uma relação com, pelo menos, duas pessoas; diz respeito principalmente ao amor que o individuo sente como lhe sendo devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de sê-lo, por seu rival.
VORACIDADE: é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar. A nível inconsciente, a voracidade visa escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio; ou seja, seu objetivo é introjeção destrutiva, ao passo que a inveja, visa não apenas despojar para depositar maldade. Assim, uma diferença essencial entre voracidade e inveja, embora não haja linha divisória entre elas, visto estarem estreitamente associadas, seria, que a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja `projeção.

GRATIDÃO

- Um contraponto ao sentimento de inveja é um sentimento de gratidão.
- GRATIDÃO – a criança usufrui o que esse objeto tem de bom.
- ligada à pulsão de vida, para tanto, é preciso que o indivíduo possa suportar ansiedade causada pela inveja. Se não suportar, ativa mecanismos de defesa. Se conseguir suportar graus de inveja, não será necessário ativar fortes defesas.
- é um dos principais derivados da capacidade de amar.
- é essencial à construção da relação com o objeto bom e é também o fundamento da apreciação do que há de bom nos outros e em si mesmo.
- tem suas raízes nas emoções e atitudes que surgem no estágio mais inicial da infância, quando para o bebê a mãe é o único e exclusivo objeto.
- a capacidade de amar é inata, no entanto, para permanecer livre de perturbações dependerá de circunstancias externas.
- o bebê só pode sentir satisfação completa se a capacidade de amar é suficientemente desenvolvida; e é a satisfação que forma a base da gratidão.
- se há experiência freqüente de se alimentado sem que a satisfação seja perturbada, a introjeção do seio bom se dá com relativa segurança.
- uma gratificação plena ao seio significa que o bebê sente ter recebido do objeto amado uma dádiva especial que ele deseja guardar -  esta é a base da gratidão –
- a gratidão está intimamente ligada à confiança em figuras boas.









AULA: 27/03/12

















quinta-feira, 8 de setembro de 2011

MELANIE KLEIN: ALGUNS CONCEITOS FUNDAMENTAIS

KLEIN

oNão emprega métodos pedagógicos
oAngústia, defesa e fantasias inconscientes são os alicerces de sua teoria
oO ego é rudimentar: capaz de experimentar angústias, utilizar mecanismos de defesa e estabelecer relação de objeto desde o nascimento

oMundo interno: São imagos internas que não são as lembranças de experiências reais mais antigas; são o depósito introjetado destas experiências, através das fantasias, mas modificado pelo próprio processo de introjeção.
oA crença nos objetos internos fantasiosos origina-se de experiências corporais reais da mais tenra infância, ligadas a descargas violentas, incontroláveis de tensão emocional.
oO sujeito vê o mundo através das projeções e introjeções geradas pela ansiedade.
PULSÃO DE VIDA E DE MORTE
 
oA criança é determinada pela quantidade de instinto de vida e de morte presente na inveja. É em função dessa luta intrapsíquica que se estabelece as ansiedades básicas paranóides e depressivas e as neuroses como defesas diante dessas ansiedades.
oPortanto, a questão do originário está relacionada à angústia que a polaridade inata das pulsões, de vida e de morte, provoca no recém–nascido.
FANTASIA INCONSCIENTE
 
oAs fantasias são inconscientes; estão ligadas ao mundo interno e ao processo primário
oSão expressões mentais das pulsões. E é a primeira expressão do psiquismo separado do corpo biológico
oEstão presentes desde o início da vida nas relações de objeto
oÉ um mecanismo psíquico e faz parte do desenvolvimento
oÉ a base da capacidade criativa
 
oTemos acesso a pulsão através das fantasias. Elas vão apaziguar ou satisfazer as pulsões
oAs experiências das crianças com a realidade externa são influenciadas pela fantasia inconsciente (mecanismo de introjeção e projeção)
oE a fantasia também se modifica neste contato com a realidade (gratificação e frustração)
oAs fantasias são: engolir, incorporar, retaliar, envenenar
TEORIA DAS POSIÇÕES
 
oA posição esquizoparanóide e a posição depressiva são dinâmicas psíquicas que, alternando-se ao longo da vida, geram uma maneira de ser e de experienciar o mundo. É desta alternância das posições que resultará a estruturação do sujeito.
POSIÇÃO ESQUIZOPARANÓIDE
 
oDivisão do ego:
n Bom-gratifica-idealização/introjeção
nMau-frustra-projeta
oNão percebe o objeto como uma unidade- desenvolve o amor e o ódio isoladamente
oPredomina a onipotência
oDíade-narcisismo
oNão há reflexão
oNão reconheço o que é ruim como sendo meu (projeção)

oCisão do objeto interno
oA ansiedade é paranóide/persecutória, pois o ego é frágil para lidar com o desconforto, com o ódio e com a frustração.
oO ego é fragmentado.
oUtilização de mecanismos de defesa (m.d) primitivos: Splitting(cisão), projeção, introjeção, negação e identificação projetiva.
oM.D: são fantasias usadas como forma de proteção e organização da mente feita pelo ego.
POSIÇÃO DEPRESSIVA
 
oPor volta dos 6 meses.
oReconhece a realidade interna e externa
oMãe como objeto total (completa e real)
oAmbivalência-culpa-reparação
oPossibilita viver a subjetividade
oTríade-Édipo
oReconheço a dependência

oDiminuição da onipotência
oReconhecimento da própria hostilidade
oDor ao perceber os sentimentos contraditórios em relação ao mesmo objeto
oA ansiedade é depressiva
oSuporta a não exclusividade
oElabora a culpa-responsabilidade
oPercebe que o objeto não está sob o seu controle
oInicia-se a vida simbólica!!! O brincar!
RESUMINDO: 
oNa teoria kleiniana das posições – configuração específica de ansiedades, relações objetais e defesas, persistentes por toda a vida – a posição esquizoparanóide, na evolução emocional, tende a predominar nos primeiros 3 a 5 meses e a posição depressiva, posteriormente.
oO relacionamento com os objetos internos se altera com o tipo de ansiedade: temor de aniquilação na posição esquizoparanóide e temor da destruição do bom objeto pela agressividade, na posição depressiva, ao confundi-lo antes com o mau objeto. Surgiriam daí sentimentos culposos responsáveis pela depressão, os quais sadiamente levam à reparação do bom objeto, aparecendo maior integração do Eu, em evolução da posição depressiva.
 
oTodos nós viveríamos na oscilação entre as duas posições, no decorrer da vida. Bion procurou mostrar essa dinâmica em cada momento da situação analítica (PES <-> PD). Com o progresso do processo, viria a predominância da posição depressiva e a superação desta, nos mais sadios com predominância da posição depressiva e da reparação; nos mais doentios, ressaltaria a posição esquizoparanóide, tanto em duração quanto em intensidade. Em casos mais graves, essa parte psicótica, como tem sido chamada, levaria à esquizofrenia e a outros distúrbios mentais.
MECANISMOS DE DEFESA:   PROJEÇÃO, INTROJEÇÃO, IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
PROJEÇÃO
 
oNa teoria de Melanie Klein a projeção aparece, primeiramente, ligada à pulsão de morte, cuja ameaça de destruição interna é neutralizada, ao ser expulsa para fora do sujeito. Esta projeção de agressão e de libido permite que se constituam os objetos parciais seio bom e seio mau. 
 
oA projeção ocorre em todos os momentos da vida. Ela é essencial no estágio precoce de desenvolvimento, contribuindo para a distinção entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, onde tudo o que é prazeroso é experimentado como pertencente ao Si-mesmo; e tudo o que é penoso e doloroso se experimenta como sendo não-Si-mesmo. Esse é um processo normal que ajuda a fortificar o Si-mesmo e a estabelecer o esquema corporal. 
oFenichel (2005) diz que a projeção é uma reação arcaica que nas fases iniciais do desenvolvimento ocorrem de forma automática e ulteriormente é amansada pelo ego e usada para fins defensivos.
INTROJEÇÃO
 
oNos estágios iniciais do desenvolvimento tudo o que agrada é introjetado. A introjeção é um mecanismo que repete, com objetivo defensivo e regressivo no adulto, esse movimento que consistia em fazer entrar no aparelho psíquico uma quantidade cada vez maior do mundo exterior.
oA introjeção seria uma defesa contra a insatisfação causada pela ausência exterior do objeto. A incorporação é o objetivo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto. A identificação, realizada através da introjeção, é o tipo mais primitivo de relação com os objetos.
 
oPara os autores kleinianos, há um jogo de interações constantes entre os movimentos projetivos e introjetivos, do mesmo modo que entre os mundos objetais interno e externo, o que contribui para a manutenção de boas relações objetais, vitais para o sujeito. 
oNa teoria de Melanie Klein a introjeção é essencial para o psiquismo, pois é através dela que se constroem os objetos internos, o que permite a formação do ego e do superego. Mas para Klein, os objetos que se introjetam nunca são uma cópia fiel dos objetos externos, mas que estes se encontram deformados por uma projeção das pulsões e sentimentos do sujeito.
IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
 
oDEFINIÇÃO DE IDENTIFICAÇÃO: É um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações.
oIncorporação e introjeção são protótipos da identificação ou, pelo menos, de algumas modalidades em que o processo mental é vivido e simbolizado como uma operação corporal (ingerir, devorar, guardar dentro de si, etc.).
 
oA identificação como forma de defesa desenvolve-se primeiramente a partir de uma vaga relação com o mundo externo. Quando há um aumento da excitação libidinal, cujo órgão de descarga, durante a fase oral, é predominantemente a boca, a satisfação, a remoção do estado desagradável de excitação, ocorre normalmente através da sucção. O estímulo é eliminado ao ser satisfeito através de uma ação motora real, levando ao relaxamento. Poder-se-ia considerar este processo também como uma defesa, uma vez que, na verdade, ele remove o estímulo desagradável.
oQuando o seio materno não é oferecido ao lactante, a mãe que proporciona prazer, ou o seio, é incorporada psiquicamente pelo ego. O propósito da introjeção do seio materno é preenchido, se o estado doloroso da excitação for assim removido. A identificação, que é chamada também de introjeção, constitui assim a forma mais primitiva de repelir estímulos que, ultrapassando certa intensidade, teriam um efeito traumático.
 
oFoi a expressão introduzida por Melanie Klein para designar um mecanismo que se traduz por fantasias em que o sujeito introduz a sua própria pessoa totalmente ou em parte no interior do objeto para o lesar, para o possuir ou para o controlar.
oMelanie Klein descreveu em A psicanálise da criança, fantasias de ataque contra o interior do corpo materno e de intrusão sádica nele. Mas só mais tarde (1946) introduziu a expressão “identificação projetiva” para designar “uma forma especial de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva”.
 
oPara Klein a mente tem a capacidade onipotente de se liberar de uma parte do self, colocando-a em um outro objeto; o resultado é uma confusão da identidade, uma perda da diferença real entre sujeito e objeto. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).
oAtravés desse mecanismo o sujeito expulsa uma parte de si mesmo, identificando-se com o não projetado; e ao objeto são atribuídos os aspectos projetados, dos quais o sujeito se desprendeu, o que constituiria para Klein uma das bases principais dos processos de confusão. 
 
oConsiste numa projeção fantasística para o interior do corpo materno de partes clivadas da própria pessoa do sujeito, e mesmo desta na sua totalidade (e não apenas maus objetos parciais), de forma a lesar e controlar a mãe a partir do interior.
oEsta fantasia é a fonte de angústias como a de estar preso e ser perseguido dentro do corpo da mãe; ou ainda a identificação projetiva pode, em compensação, ter como conseqüência que a introjeção seja sentida “como uma entrada à força do exterior no interior como castigo de uma projeção violenta”. Outro perigo é o ego encontrar-se enfraquecido e empobrecido na medida em que se arrisca a perder, na identificação projetiva, partes “boas” de si mesmo; é assim que uma instância como o ideal do ego poderia então tornar-se exterior ao sujeito.
 
o
oPara Klein o termo projeção foi empregado tendo muitos significados: projeção do objeto interno, desvio da pulsão de morte, externalização de um conflito interno e projeção das partes do self.
Para Klein a identificação projetiva constitui uma visão mais tradicional da projeção, na qual parte do self é atribuída a um objeto. Assim, parte do ego – um estado mental, por exemplo, tal como uma raiva indesejada, o ódio ou outro sentimento mau – é vista em outra pessoa e completamente repudiada (negada).
oPara Klein o equilíbrio entre os processos de identificação projetiva e introjetiva é estruturante do mundo externo e interno. A identificação projetiva constitui-se como um fenômeno normal, base da empatia e da possibilidade de comunicação entre as pessoas. É a intensidade e qualidade que determina se o mecanismo é patológico ou normal. 
IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA NA EXPERIÊNCIA ANALÍTICA
oO conceito de identificação projetiva é cada vez mais utilizado por todos os analistas das várias correntes da IPA, por ter se mostrado de importância enorme para se entender o inter-relacionamento emocional entre paciente e analista e como essas trocas contribuem para o progresso ou a paralisação de uma análise.
oA identificação projetiva, forçando sentimentos no analista, às vezes inclusive para fazê-lo desempenhar um papel, pode servir para melhor entendimento do mundo interno inconsciente do analisando. Por exemplo, o analista pode se sentir confuso, por assim “o fazer” inconscientemente o paciente, e, tendo consciência disso, procura mostrar esse achado ao último. É claro ser necessária a distinção entre uma confusão “desejada” pelo paciente, como resistência à análise, de outra decorrente do próprio inconsciente do analista – contratransferência negativa –, que deveria ter sido pelo menos diminuída, se não abolida na sua análise.
A SITUAÇÃO ANALÍTICA...
 
oDurante uma análise, os objetos internos (foram internalizados pela identificação introjetiva) tendem, por identificação projetiva, a ser colocados no analista, o qual passa a ser tratado pelo paciente como se fosse esse objeto. Assim, por exemplo, se o paciente internalizou a figura materna ou paterna como objeto persecutório, na análise, “colocando-o” no analista, este pode ser sentido como perseguidor.

oEm outro momento da sessão, se “põe” no analista um objeto idealizado, mantendo dentro de si o persecutório – cisão defensiva própria da posição esquizoparanóide –, pode surgir uma dependência exagerada do analista, necessitando este, conscientizando-se da dinâmica em jogo, não assumir uma atitude protetora desejada pelo analisando, enfim, não “atuar”.
oOportunamente, deve interpretar ao paciente essa fantasia inconsciente para poder o processo analítico evoluir. Esse dinamismo é básico em todo o relacionamento médico–paciente, quando o paciente regredido constrói pela doença um objeto persecutório interno e idealiza o médico como seu salvador. Aqui, diferentemente de uma análise, o terapeuta em grande parte assume tal papel, orientando, esclarecendo e apoiando emocionalmente.

oA conhecida transferência, por Freud descrita como “reedição do passado no presente”, pela contribuição kleiniana é mais precisamente considerada revivência de objetos internos, por identificação projetiva, colocados no analista. O analista tem de ser receptivo (conceito de rêverie de Bion, de sustentação – holding – de Winnicott, ou de empatia de Kohut) a essas projeções, sem se identificar (introjetivamente) com elas, quando então assumiria o papel de um terapeuta, e não de um analista. 

oNa análise, o analista, como a “mãe boa”, em vez de atuar como o faz a mãe, adequada para com o infante, procura-se mostrar (interpretar) ao analisando o dinamismo, a fantasia inconsciente surgida na sessão.
oNa clínica psicanalítica, o conceito da interação entre identificações projetivas e introjetivas entre analista e analisando torna-se hoje soberano. Um coloca no outro seus “objetos internos”, imagos de representações, experiências e fantasias inconscientes do passado infantil. Pela assimetria da situação analítica, o paciente o faz com maior intensidade, ou pelo menos assim deve ser, quando se supõe ter o analista um mínimo de maturidade emocional para regredir juntamente com o paciente, para melhor entendê-lo, mas logo volta ao normal.

oEm pacientes com predominância da parte psicótica, mais regressiva, a atitude maternal de rêverie, holding, empatia, necessita predominar, embora, é claro, isso não significa tratar o paciente como a mãe o faz com o bebê. Em ocasiões em que o paciente se mostrar mais evoluído (predominância da parte neurótica ou sadia), o analista assumiria então o papel paternal esclarecedor, pelas interpretações. A escolha de uma atitude mais receptiva, maternal, ou interpretativa, paternal, depende muito da intuição do analista e é neste ponto que começa a psicanálise arte. Alguns possuem esse dom mais acentuado, de modo inato, do que outros.
A identificação projetiva surge pois como uma modalidade da projeção. Se M. Klein fala aqui de identificação, é na medida em que é a própria pessoa que é projetada. O emprego kleiniano da expressão identificação projetiva é conforme ao sentido estrito que se tende a reservar, em psicanálise, ao termo “projeção”: rejeição para o exterior daquilo que o sujeito recusa em si, projeção do que é mau.